O CICLO DO PAVOR (1966). Dir.: Mario Bava.

 

 

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NOTA: 10

 

 

Sinopse:

O médico Paul Eswai chega a um vilarejo do século XIX para realizar a autopsia no corpo de uma mulher que morreu em circunstâncias misteriosas. Mesmo a contra gosto dos habitantes, Eswai decide realizar a operação, ao lado Monica Schuftan, antiga moradora do local, que retornou para visitar os túmulos de seus pais. Porém, o que eles não sabem, é que o vilarejo esconde um segredo, que está relacionado com a Vila de uma antiga baronesa.

 

 

 

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Conforme mencionei na resenha de Seis Mulheres para o Assassino (1964), o diretor Mario Bava era um Mestre do cinema de horror. Dentre suas obras, CICLO DO PAVOR (1966) é uma das minhas favoritas.

Marco do Terror Gótico Italiano, é um filme maravilhoso. Uma historia de fantasmas com toques de conto de fadas, com os truques que somente Bava conseguia dar a suas obras.

Não é novidade nenhuma que Bava era um especialista em fazer grandes coisas com orçamentos e tempos apertados, e aqui, não é diferente. A produção foi marcada por dificuldades, e em determinado momento, o orçamento acabou, mas, mesmo assim, a equipe e o elenco concordaram em trabalhar de graça; mas, nada disso impediu o filme de ser uma obra maravilhosa.

Bava faz uso de técnicas espetaculares, técnicas essas que diretor nenhum consegue – nem conseguirá – copiar. Isso aconteceu graças à sua experiência como operador de câmera e diretor de fotografia nos anos 50, o que lhe rendeu muitos elogios. E claro, quando resolveu se aventurar na direção, levou suas técnicas consigo.

 

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Bava estreou oficialmente na direção em 1960, com o excelente A Maldição do Demônio, e desde então, tem se dedicado ao terror gótico praticamente com exclusividade – o que não o impediu de se aventurar em outros gêneros, claro. E em O Ciclo do Pavor, Bava está em sua melhor forma.

O roteiro é simples, mas, torna-se pretexto para o diretor aplicar tudo o que desenvolveu nos anos anteriores. Impossível dizer qual o melhor momento, porque são muitos; mas, sem duvida, uma das melhores cenas é a do balanço no cemitério – mais sobre ela adiante. 

A fotografia é uma melhores coisas do filme, sem duvida. Com tons de laranja, azul e preto, ela enche a tela e chega a hipnotizar e a ser atraente. Sério. Dá um aspecto de nostalgia e interior ao filme, o que o enchem ainda mais de charme. E a transição de cores acontece naturalmente; se no inicio, durante o dia, o filme é banhado nos tons laranja e amarelos, durante a noite, o preto e o azul-escuro tomam conta, e não mudam o tom nostálgico do filme. Sem duvida, mesmo não sendo responsável pela direção de fotografia, Bava soube administrar os tons, e, sinceramente, não chegam a transformar o filme num arco-íris, mas deixam-no lindo.

 

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O design do filme também contribui para deixa-lo lindo. O vilarejo parece parado no tempo, completamente envolto em teias de aranha; as portas das casas estão sempre fechadas; as paredes são forradas de alho, cruzes e velas – uma amostra do quão supersticiosos seus habitantes são – ; e principalmente, a Vila da Baronesa Graps não fica para trás. A decadência está presente em todas as paredes da casa, cuja pintura está caindo aos pedaços; os cômodos e moveis estão envoltos em enormes teias de aranha, e o muro da cripta da família está prestes a desmoronar. Parece que a qualquer minuto, a Vila vai desabar.

A trilha sonora, composta por Carlo Rustichelli, que já havia trabalhado com Bava no passado, é maravilhosa. Ao invés de ser uma trilha alta, que pula na tela, é quase uma melodia de conto de fadas, que casa perfeitamente com a atmosfera do filme.

Como mencionado acima, o filme tem varias cenas impressionantes; uma das melhores, sem duvida é o balanço. É uma cena perfeita, com Bava dando seus toques de mestre; os primeiros segundos mostram a câmera indo para frente e para trás, de maneira aleatória, sobrenatural, até. Não me lembro de ter visto uma cena tão artesanal e linda como essa, e com a paleta de cores, fica perfeita. A cena da escada também é muito boa, digna de provocar arrepios. Mas, uma das minhas favoritas, é quando o Dr. Eswai chega ao vilarejo: assim que sua carruagem para, ele vê, ao longe, um grupo de homens carregando um caixão. É uma cena em plano geral, sob o céu alaranjado, com as silhuetas dos homens andando; quando vi essa cena pela primeira vez, eu me apaixonei pelo filme, e toda vez que eu o vejo, volto a cena para conferir de novo. As cenas entre o Comissário Kruger e o protagonista também são as minhas favoritas. Bava soube filmá-las muito bem, sem uso de trilha sonora, o que as deixa mais sinistras. Outro exemplo da genialidade do diretor.

 

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Os personagens do filme também merecem atenção. O Dr. Paul Eswai é o típico homem da Ciência, o médico que não acredita no sobrenatural nem nas superstições dos moradores do vilarejo, e mostra-se disposto a enfrentar a tal maldição para provar suas teorias. Seria o tipo de personagem que a gente torce para ser eliminado, mas, sinceramente, não é possível. Monica, a antiga moradora do vilarejo também é uma ótima personagem, o tipo de pessoa que, mesmo morando naquele lugar durante boa parte da vida, sente-se uma estranha quando retorna. Ela tem uma personalidade doce, mas não daquele tipo que exagera, sempre chorando por aí, fazendo gestos e caras e bocas; pelo contrario, ela é verdadeira em sua fragilidade. E a relação entre os dois funciona muito bem, e francamente, não seria surpresa se ambos se apaixonassem um pelo outro. Não atrapalharia em nada o andamento da trama.

Os demais personagens também são atraentes. Cada um à sua maneira, é envolvido pelo mistério que ronda o vilarejo, e mostram-se verdadeiramente aterrorizados pelas forças sobrenaturais. O burgomestre já não tem poder nenhum sobre o lugar; os habitantes acreditam apenas em suas próprias leis. Enfim, os típicos personagens supersticiosos de historias como essa. Uma menção especial para: Ruth, a bruxa do vilarejo. Dotada de poderes de cura, é a ela a quem os moradores recorrem quando algo ruim acontece, e eles confiam fielmente em suas habilidades. A Baronesa Graps é a própria imagem da decadência. Morando em sua Vila caindo aos pedaços, ela própria também está decaindo, com as roupas sujas, o cabelo embaraçado, despreocupada com sua aparência, uma completa reclusa. E por fim, Melissa, a menina morta. Vitima de um acidente que lhe custou a vida, ela é um melhores fantasmas do cinema de horror. Vestida de branco, com o rosto branco como papel e os cabelos loiros, é uma imagem assustadora. Ela é a responsável pelas mortes misteriosas no vilarejo, e os residentes têm até medo de pronunciar seu nome.

 

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Todos esses aspectos fazem de O Ciclo do Pavor um dos melhores filmes de terror do cinema italiano. Sem duvida, é um daqueles filmes que ficam melhores a cada vez que vemos, e às vezes parece que uma coisa nova vai aparecer. É um dos filmes que eu mais gosto de assistir, e faço isso com prazer, de verdade. Mesmo tendo-o visto várias vezes, não me canso dele.

Com mais esse filme, Mario Bava provou que era um Maestro do Cinema de Horror Italiano, e o Rei do Horror Italiano.

Foi lançado em DVD por aqui pela Versátil Home Vídeo, na excelente coleção Obras-Primas do Terror Vol.2, com áudio original italiano.

 

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Créditos: Versátil Home Vídeo

 

Recentemente, foi lançado em Blu-ray, em versão restaurada, que na minha opinião, não faz jus ao filme, além de ser dublada em inglês. Na minha opinião, é muito melhor assistir ao filme com áudio original em italiano; assisti-lo com dublagem em inglês é muito estranho, parece outro filme. A versão disponível aqui no Brasil é muito melhor.

Enfim, O Ciclo do Pavor é um filme excelente. Um filme belíssimo. Uma história de horror com toques de conto de fadas. Um dos filmes favoritos do Maestro Mario Bava.

 

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O Ciclo do Pavor (1966)

 

 

 

 

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