UMA LAGARTIXA NUM CORPO DE MULHER (1971). Dir.: Lucio Fulci.

NOTA: 9

Sinopse:

Carol Hammond é uma mulher que sofre de insônia e tem pesadelos, que compartilha com seu terapeuta. Durante uma das sessões, ela conta ao médico que teve um sonho onde matou sua vizinha. No entanto, o que ela não sabe é que a mulher foi, de fato, assassinada em seu apartamento. A policia chega ao local para investigar, e as evidencias apontam para Carol, que não sabe se realmente teve um sonho ou se o homicídio de fato aconteceu. Ao mesmo tempo, ela se sente perseguida por um rapaz que acredita ter visto em seu sonho.

Como já mencionei em outras resenhas, o diretor Lucio Fulci era o Padrinho do Gore. Desde que se aventurou no gênero terror, no final dos 70, Fulci mostrou que entendia da arte de assustar o publico com cenas repletas de sangue. Porém, antes de se tornar um dos mestres do terror da Itália, Fulci resolveu se aventurar no Giallo, que na época, estava em alta no país. O diretor iniciou a carreira no gênero com Uma Sobre a Outra (1969), passando pelo polêmico O Segredo do Bosque dos Sonhos (1972), Premonição (1977), e este aqui, UMA LAGARTIXA NUM CORPO DE MULHER, lançado em 1971.

O filme, que marca sua primeira parceria com a atriz brasileira Florinda Bolkan, é um dos melhores exemplares do gênero. Com uma trama cheia de mistérios e reviravoltas, o filme consegue prender a atenção do espectador, e deixa-lo intrigado para resolver o mistério.

Como já disse outra vezes, o Giallo foi um subgênero que, da mesma forma que o terror, por exemplo, teve suas variações, e esse filme é uma delas. Sim, porque ele não apresenta o tradicional assassino de luvas pretas que sai matando mulheres com requintes de crueldade. Aqui, a trama é bem diferente; o roteiro apresenta uma ideia até original para o gênero, a ideia de que, às vezes, nosso subconsciente nos prega peças. Não digo que esse tema específico não foi abordado outras vezes em outras mídias, até acredito que sim; estou dizendo que, no gênero Giallo, eu vi poucos filmes que tocaram nesse assunto. Claro, a ideia da testemunha ocular que viu algo, mas não tem certeza, é algo recorrente, mas não chegou a ser explorada por um viés cientifico. Então, aqui, temos, sim, a protagonista que não sabe o que viu, mas abordado de outra forma. Segundo o roteiro, tudo acontece no subconsciente da personagem, que sofre de insônia e parece apresentar transtornos psicológicos.

Tal argumento é muito bem abordado pelo filme, principalmente nas cenas de investigação, quando os policiais decidem entrevistar o terapeuta. Admito que às vezes, as explicações dele parecem um tanto confusas, mas, se fizermos um esforço, podemos entender o que está sendo dito para nós, e até compreender a chave do mistério. Um mistério, que, como é comum no gênero, só é revelado no final do filme.

O roteiro faz uso de algo que já vi em outros exemplares. Em certo ponto da trama, as evidencias coletadas pela policia apontam para um determinado personagem, apesar do mesmo negar sua participação no caso. Pois bem, o filme utiliza desse argumento, e ao mesmo tempo, apresenta outros personagens que podem também ser culpados pelo crime, o que obriga o espectador a pensar um pouco mais. É uma tática muito boa, que funciona.

Eu confesso que na primeira vez que assisti ao filme, tive minhas dúvidas, principalmente a respeito do crime e do titulo; mas, conforme fui assistindo outras vezes, comecei a “pescar” as dicas apresentadas no roteiro e passei a compreender o que estava sendo apresentado. É uma coisa que acontece em muitos Gialli, porque as peças do quebra-cabeça nos são entregues aos poucos, então, temos que raciocinar antes de começar a montá-lo. Fulci faz uso desses enigmas com maestria, e consegue, sem esforço, deixar o espectador em dúvida. Ouso até dizer que essa dúvida fica conosco até mesmo depois do mistério ser resolvido, obrigando-nos a rever o filme.

Como mencionado acima, o filme marca a primeira parceria entre o diretor e a atriz brasileira Florinda Bolkan. A performance da atriz é excelente. Sua personagem parece tomada pela paranoia constante, provavelmente ocasionada por seus problemas psicológicos. Florinda passa, com total veracidade, tudo aquilo que a personagem está sentindo, seja medo, duvida, ódio… uma atuação excelente. Seus colegas de elenco não ficam atrás. O ator Jean Sorel, que já trabalhou com o diretor em Uma Sobre a Outra, também entrega uma ótima performance como o marido da protagonista; mas, quem rouba a cena, de fato, é o ator Stanley Baker, no papel do inspetor encarregado do caso; parece mesmo que ele é um policial, que não mede esforços para resolver o enigma e prender o culpado. Os outros atores também entregam boas atuações, e seus personagens também tornam-se criveis. Porem, o filme tem um defeito. A vizinha da protagonista é interpretada pela atriz Anita Strindberg, não-creditada. Eu sei que ela é uma das musas do Giallo, mas, como disse na resenha de No Quarto Escuro de Satã, eu não gosto dela, não acho que seja uma boa atriz. Sua participação no filme é pouca, mas, mesmo assim, não me agrada.

O responsável pelos efeitos especiais foi o mestre Carlo Rambaldi, famoso por criar o monstro de Alien, o 8º Passageiro e o E.T. de E.T., o Extraterrestre. Com vasto currículo, Rambaldi já trabalhou com alguns mestres do cinema, e no terror, seus truques merecem ser mencionados. Como já sabemos, Fulci tornou-se conhecido por ser o Padrinho do Gore, algo que desempenhou com maestria. Pois bem, mesmo não sendo um filme de terror, aqui temos alguns efeitos de gore, principalmente nos sonhos da protagonista. E Fulci já deu uma amostra do que faria no futuro, porque o gore é caprichado, com direito a tripas expostas e sangue escorrendo. Porem, a cena mais famosa do filme é a tal “cena dos cachorros”, que causou um grande alvoroço na época, devido a sua veracidade. O caso foi tanto que Rambaldi teve de levar os bonecos para o tribunal, a fim de provar que não eram verdadeiros. A cena é, de fato, chocante e impressionante. Um verdadeiro tapa na cara.

Além dos efeitos especiais de Carlo Rambaldi, o filme também contou com a trilha sonora do grande Maestro Ennio Morricone. A trilha do Maestro é excelente, com aspecto de fantasia, principalmente nas sequências de sonho da protagonista. Nas cenas de suspense, a trilha muda de foco, tornando-se até um pouco sombria. Um belo exemplo do trabalho promissor do saudoso Maestro Ennio Morricone.

Para finalizar, vou destacar a sequencia em que a protagonista é perseguida por um dos suspeitos do crime dentro do Alexander Palace. Mesmo não sendo um filme de terror, esse é o momento mais assustador do filme, porque é impossível saber o que vai acontecer. A tensão está presente em todos os momentos, e parece que vai aumentando a medida que o homem se aproxima dela. Uma sequencia impressionante, digna de pesadelos.

Foi lançado em DVD no Brasil pela Versátil Home Vídeo na coleção Giallo Vol.2, em excelente versão restaurada.

Créditos: Versátil Home Vídeo

Enfim, Uma Lagartixa Num Corpo de Mulher é um filme excelente. Uma historia enigmática de investigação policial, com elementos de erotismo e terror. Um roteiro muito bem escrito, que não entrega de cara a solução para o espectador, obrigando-o a raciocinar conforme vai acompanhando o filme. Uma direção madura de Lucio Fulci contribui para deixar o filme ainda melhor, combinado com a excelente atuação da atriz brasileira Florinda Bolkan. Um excelente exemplar do gênero Giallo.

Uma Lagartixa Num Corpo de Mulher (1971)

Acesse também:

https://livrosefilmesdehorror.blogspot.com/

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